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GRATIDÃO

GRATIDÃO

 

Do silêncio aprendemos tudo

A sua cunha nos dá aprumo

e destreza no uso

de tantas manivelas

 

As paisagens que visitei

entendi pelas frestas

e os passos com que marquei o chão

foram os dias escritos na pele

 

Eu grato sou pelo destino

mudo

de uma máscara em movimento

sua modelagem tem a alegria

própria

das possibilidades que se alternam

 

Eu agradeço o bonito que é

quando impávido o silêncio costura

a sua mortalha de imaculadas confissões

 

 

De O Eu-Cão Que Aprumo, 2009

I.Fornerón

DISCURSO AZUL

DISCURSO AZUL 

No dia nacional dos olhos teus,
Imune que já sou anti-gravata,
Eu boto um chorte blu e alpercata
E saio por aí feito um judeu.

Pregando que te amo dou embate,
Usando o meu buquê feito um Sansão
Ao Césio infeliz que desacate
Querendo atomizar teu coração.

No dia nacional dos olhos teus,
Também conhecido por do anil,
Entupo todo cano de fuzil
Com dálias, cravinas e chananas.

A cada maloqueiro três bananas.
A cada feridento um cataplasma.
A cada amenorréica uma cenoura.
Cigarro de fulo a quem tem asma.

Dum frevo faço hino na Pracinha,
Os braços a fidalgos e plebeus,
Eu canto: Se essa rua fosse minha
No dia nacional dos olhos teus.

Edvaldo Bronzeado (1939 – 2012)

Y me debes creer

http://www.youtube.com/watch?v=VxvoCK2tEIg

O Grande Circo Místico

 

O médico de câmara da imperatriz Teresa ­ — Frederico Knieps

resolveu que seu filho também fosse médico,

mas o rapaz fazendo relações com a equilibrista Agnes,

com ela se casou, fundando a dinastia de circo Knieps

de que tanto se tem ocupado a imprensa.

Charlote, filha de Frederico, se casou com o clown,

de que nasceram Marie e Oto.

E Oto se casou com Lily Braun a grande deslocadora

que tinha no ventre um santo tatuado.

A filha de Lily Braun — a tatuada no ventre

quis entrar para um convento,

mas Oto Frederico Knieps não atendeu,

e Margarete continuou a dinastia do circo

de que tanto se tem ocupado a imprensa.

Então, Margarete tatuou o corpo

sofrendo muito por amor de Deus,

pois gravou em sua pele rósea

a Via-Sacra do Senhor dos Passos.

E nenhum tigre a ofendeu jamais;

e o leão Nero que já havia comido dois ventríloquos,

quando ela entrava nua pela jaula adentro,

chorava como um recém-nascido.

Seu esposo — o trapezista Ludwig — nunca mais a pôde amar,

pois as gravuras sagradas afastavam

a pele dela o desejo dele.

Então, o boxeur Rudolf que era ateu

e era homem fera derrubou Margarete e a violou.

Quando acabou, o ateu se converteu, morreu.

Margarete pariu duas meninas que são o prodígio do Grande Circo Knieps.

Mas o maior milagre são as suas virgindades

em que os banqueiros e os homens de monóculo têm esbarrado;

são as suas levitações que a platéia pensa ser truque;

é a sua pureza em que ninguém acredita;

são as suas mágicas que os simples dizem que há o diabo;

mas as crianças crêem nelas, são seus fiéis, seus amigos, seus devotos.

Marie e Helene se apresentam nuas,

dançam no arame e deslocam de tal forma os membros

que parece que os membros não são delas.

A platéia bisa coxas, bisa seios, bisa sovacos.

Marie e Helene se repartem todas,

se distribuem pelos homens cínicos,

mas ninguém vê as almas que elas conservam puras.

E quando atiram os membros para a visão dos homens,

atiram a alma para a visão de Deus.

Com a verdadeira história do grande circo Knieps

muito pouco se tem ocupado a imprensa.

 

Jorge de Lima. Poesia Completa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1997, pp. 372-373.

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=nwPhQw4NpX0#!

Cavalo, cavalo,

sonoro casco

sedosa crina

feno

com rabanetes

só na sua estrebaria

 

 

Cavalo, cavalo,

olho igual

à estrela Aldebarã

aveia e mel

é verde pasto

azul corcel

pela manhã

 

 

I.M.Fornerón

IVAN, 40 ANOS

IVAN, 40 ANOS

 

Avança o buril pela minha gravura

altura

peso

inscrições

sinais

textura

cor

e seja mais o que for

que há em mim

completa 40 anos

Ganhei um rio pra ver naufrágios

só pra provar dessa água

de um modo alternativo

Vivo com riso

e siso

tenho nove orifícios

e conheço a fé

do oxigênio poluído

da minha cidade

Dois grandes amores me arrancaram os braços

o que abandonei e por quem fui abandonado

pensam em mim como que diz “Voa”

Minha sorte está intimamente ligada

à vida dos animais

Parabéns, Ivan!

Do alto da ternura dos que não falam

quatro décadas você contempla