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Archive for the ‘umbra-penumbra’ Category

Distante de um quadrado, a pouco menos de 3 centímetros, um círculo trama em suas redondezas o bote fatal: colocará à prova sua lima, ensaiada e treinada por tanto tempo, erosão desfazedora de bicos e quinas.

“Nihil tam absurde dici potest quod non dicatur ab aliquo philosophorum.”

(Cicero, De divinatione, II)

“Nada se pode dizer de tão absurdo que não tenha sido dito por algum filósofo.”

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POR MI ESPEJO CRUZAN, SI QUIERES, EXTRAÑAS SEMBLANZAS

Ante mi último espejo, al verme

entero, enfermo, tal vez acabado,

quizá condenado, tan pálido,

dije muy lentamente claras palabras

bellas, frágiles, altas, las más nobles

que hallaba en la tiniebla de mi recuerdo.

Mas desde siempre, allí había

soeces, fofas, viscosas bestias,

que desde los rincones venían hasta los labios

a roerme las palabras mientras nacían:

no oyes aún el profundo rumor

de pergamino, de huesos rotos, de cristal?

Y entretanto, en el espejo se reflejaba

poco a poco una perversa imagen,

cuyo signo podrás entender

si, como yo, tú también haces la extraña prueba

de acechar tu fondo bueno, a cualquier hora,

al tiempo de intentar de nuevo una imposible,

inútil creación por la palabra.

PEL MEU MIRALL, SI VOLS, PASSEN RARES SEMBLANCES

Davant el meu últim mirall, en veure’m

sencer, malalt, potser acabat,

potser damnat, tan pàl lid,

vaig dir molt lentament clares paraules

beles, fràgils, altes, les més nobles

que trobava en la foscor del meu record.

Des de sempre, però, allí hi havia

grasses, molles, llefiscoses bèsties,

que dels racons venien fins als llavis,

a rosegar-me els mots mentre naixien:

no sents encara la remor profunda

de pergamí, d’ossos trencats, de vidre?

I al mirall, entretant, es reflectia

a poc a poc una perversa imatge,

el signe de la qual podràs entendre,

si fas també, com jo, l’estranya prova

d’esguardar el teu bon fons, quasevol hora,

tot intentant de nou una impossible,

inútil creació per la paraula.

Salvador Espriu

trad. de José Batlló

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Quando o que se escreve ultrapassa o limite e o espaço daquele que escreve, este fica sendo o morto futuro que falará aos olhos dos vivos. Sendo assim, também eu devo um texto a um par de olhos que nunca me viram. Esses olhos entenderão o diálogo daquilo que foi, e saberão que toda continuidade está presa [na] [no gancho de um ponto de] interrogação, e que seguir só é possível graças ao renovado desconhecimento da nossa ciranda incompleta.

Basta não esquecer que o aplauso é o princípio da invocação

(dois fragmentos de Heráclito que traduzi o mais livremente possível, i.e., apenas para consumo próprio)

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C’EST SI BON

Porque abstração

é sempre um traço diluído

de um látego que fustiga

v a g a r o s a m e n t e

Isso ainda não é masoquismo

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uma rua persiste

em ser o calcanhar

da memória olfativa

a minha e a tua

conjunto de ímãs

martelada bússola

e uma velha história da procura

nessa confusão resignada

que o norte busca

rumo ao Sul

sempre

veio cedo, matutando

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Há um dia na noite estranha

e uma madrugada fria que me faz sair de casa pra comprar cigarros

como mera súplica da inconsciência e do acaso

percorrendo ruas vazias e de gelo

e sombras que espreitam por toda parte

Quando a reviravolta está por chegar

há um pesadelo de rosto amável

e a lembrança enquanto boto o troco na carteira

e piso devagar

o caminho oposto

É desperdiçado

e não passou pela vida

aquele que não se entreteve

com o jardim noturno, anfigúrico

mas único

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Não é o acaso, praga e nem maldição esse esquecimento instantâneo das muitas idéias que povoam a cabeça ritimada no asfalto paulistano; essa verborragia passada de língua em língua e todos os sussurros da nossa cinza coloração; também não são mãos o que dispara o frenesi da nossa atenta desatenção; o riso, talvez, porque há muito eco na escaramuça do seu desespero; mas também não é o riso, e também não são os milhares de fios dos postes e dos cabelos, nem as entranhas da fome, nem o fermento que ruboriza o ébrio, nem a transparência amarela da cerveja. Por alguns instantes, a fumaça do cigarro até confunde porque nos tornamos sombras na nossa despedida, e há sempre um vulto seqüestrado de um semblante que só tornará a cruzar com o nosso através das costas da retina. Há uma rua, ou melhor (e pra rimar), uma avenida onde achados e perdidos cumprimentam-se indiferentes à nossa sensação, não de abandono, mas de quebra-cabeça onde uma matemática impossível subtrai a soma dos dias que ganhamos e dos dias perdidos. No fundo, esse não ter nome é até desimportante se comparado ao nosso ritual de trazer a única consciência que temos na sola dos pés.

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