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Archive for the ‘família’ Category

Condensação Interior

“Foi este o primeiro dos quatro amores eternos que fazem da minha vida uma grave condensação interior. Sou falsamente um solitário. Quatro amores me acompanham, cuidam de mim, vêm conversar comigo. Nunca mais vi Maria, que ficou pelas Europas, divorciada afinal, hoje dizem que vivendo com um austríaco interessado em feiras internacionais. Um aventureiro qualquer. Mas dentro de mim, Maria… bom: acho que vou falar banalidade.”

Mário de Andrade; In: Vestida de Preto

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ONDE À NUDEZ

“Escrevo onde à nudez cabe o papel

habitualmente atribuído a uma janela.

Quando afasto as cores para no lugar delas não deixar senão a luz

ou me debruço sobre ao peitoril sobre os meus próprios intestinos,

a ficção fica por conta dos relâmpagos.

É como se habitasse uma cidade que tivesse um espelho por subúrbios

e o mar viesse estilhaçar-se ao fundo da memória,

onde se encontra o coração.

Abro na página um buraco

onde alicerço a casa, as letras vêm às janelas.”

Luís Miguel Nava (1957-1995)

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torquato_giovanottoSão grandes e cortam a gente de cinza

as pontiagudas pedras

e a ternura calcinada no teu sembante

O olho que te descobriu no caminho

ainda fita tua capa esvoaçante sobre o viaduto

mas você ainda não sabia

Eu ainda olho o mais lindo nosferatu

com vícios que tenho de cajuína e de São Paulo

e sigo como aquelas distâncias

de entranhas

no encalço

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Mayumi era o nome, imagino que ainda o seja, da vizinha que eu tinha, em 1985, na Aclimação. Não sei o que é do seu destino, e nem ela deverá saber do meu, posto que nenhum não tenho. Eu devia ter o quê, uns dez, doze anos? É possível. Ela tinha um sorriso daqueles lindos, e cabelos escorridos e bem pretos de índia. Tinha um pequinês maldito que me mordeu três vezes, e era mais feio que o capeta do escadão esburacado do beco (tinha um beco com um escadão no fim que ligava a rua Raimundo de Brito e a av. Aclimação, e era um lugar usado pra despachos, queimação de fumo, paredão alternativo para ‘cositas’, e claro, batida policial quando o tédio batia na ‘força pública’). A história é longa assim como todas as histórias das lembranças lusco-fusco como a minha. Agora só me interessa a visita de Mayumi, a visita da sua lembrança: os ecos de Mayumi. E a última imagem que tenho dela são de gritos e choro humilhado, os mesmos que vi, sem entender e paralisado, pela fresta da janela da sua casa, enquanto apanhava de tamanco da própria mãe, e sua irmã a segurava. Mayumi era bem mais velha do que eu, e já contava seus dezoito ou vinte anos. O que fez Mayumi despertar a ira em sua casa deve ter sido obra do desejo, realizado ou frustrado, que redemunha qualquer vida a qualquer tempo. Saber as razões da surra de Mayumi, passados mais de vinte anos, já não me toca. Mas me inquieta o porquê dessa lembrança ter batido à porta, a minha, e ter grafitado o nome de Mayumi.

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É longa

muito longa

a notícia de ninguém

Portanto,

como idéia fixa

como abelha e mel

como aranha e mosca

resuma o teu engano

como se um gancho fosse

de alguém

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Não é lenda e ninguém me contou. Numa gramática de Alemão, pertencente à Coleção Didática da biblioteca da FFLCH, eu procurava, na parte de “complemento adverbial”, informações sobre a palavra ‘jahrhundert’ (século), e eis que me deparo com a pichação de alguma mão perturbada que resolveu escrever: “As drojas e os drojados impedem avanços da Línjua Portujêsa”, e logo em seguida, em Alemão:  “Es darf kein Wort ge sagt werden” (Não se pode dizer uma palavra). Por não ter assinatura, nem data, até agora fico me perguntando: em que ano essa criatura deve ter se matado?

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Rapinagem

Mirando o ovo da avestruz

a primeira inclinação dos vermes

é a rapinagem:

disposição nobre quando se tem fome

e não deixa de ser linda

essa obediência ao instinto.

Alguém

(e só você saberá me dizer quem é)

pratica a infame rapinagem

desnecessária para um verme saciado

que arrotar já não consegue

e seus gases são aqueles conhecidos

comentários

da vida alheia.

E cada vez mais pegajosa

engorda tanto a sua verme forma

que já não nota

os corvos às costas

cumprindo a árdua tarefa

que apenas os de estômago forte

podem realizar.

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