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Archive for outubro \23\UTC 2008

INTERRUPÇÃO

A obra dos Deuses, nós a interrompemos – entes

somos da pressa e do momento, inexperientes.

No palácio de Elêusis e no de Ftia, eis

que iniciam Deméter e Tétis, em chamas

altas e fumo espesso envoltas, grandes obras. Mas

sempre foge Metanira aos aposentos do rei,

cabelos soltos, temerosa. Também

Peleu se atemoriza sempre e intervém.

(Kaváfis)

trad. de José Paulo Paes

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Mayumi era o nome, imagino que ainda o seja, da vizinha que eu tinha, em 1985, na Aclimação. Não sei o que é do seu destino, e nem ela deverá saber do meu, posto que nenhum não tenho. Eu devia ter o quê, uns dez, doze anos? É possível. Ela tinha um sorriso daqueles lindos, e cabelos escorridos e bem pretos de índia. Tinha um pequinês maldito que me mordeu três vezes, e era mais feio que o capeta do escadão esburacado do beco (tinha um beco com um escadão no fim que ligava a rua Raimundo de Brito e a av. Aclimação, e era um lugar usado pra despachos, queimação de fumo, paredão alternativo para ‘cositas’, e claro, batida policial quando o tédio batia na ‘força pública’). A história é longa assim como todas as histórias das lembranças lusco-fusco como a minha. Agora só me interessa a visita de Mayumi, a visita da sua lembrança: os ecos de Mayumi. E a última imagem que tenho dela são de gritos e choro humilhado, os mesmos que vi, sem entender e paralisado, pela fresta da janela da sua casa, enquanto apanhava de tamanco da própria mãe, e sua irmã a segurava. Mayumi era bem mais velha do que eu, e já contava seus dezoito ou vinte anos. O que fez Mayumi despertar a ira em sua casa deve ter sido obra do desejo, realizado ou frustrado, que redemunha qualquer vida a qualquer tempo. Saber as razões da surra de Mayumi, passados mais de vinte anos, já não me toca. Mas me inquieta o porquê dessa lembrança ter batido à porta, a minha, e ter grafitado o nome de Mayumi.

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