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Archive for março \29\UTC 2008

Quando contrariadas, muitas disposições tornam-se obesas, cansadas; algumas até explodem de tão entupidas suas artérias. A contrariedade, nesse caso, é uma benção: mais do que na raiz, mata as falsas inquietações já na semente.

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Quem acha que conhece o Espanhol é porque, de fato, não o conhece mesmo. Isso vale pra qualquer idioma, inclusive o Internético, laboratório de inventivas garatujas. A prova mais convincente do não conhecimento é o tanto que se escreve, o barulho e a falaria. Quem realmente conhece, e isso até mesmo os ácaros comprovam, vive no silêncio. Silêncio do bom, o mesmo da cauda escorpiana.

Eu tinha um dicionário nas mãos quando buscava o que esqueci, e quando você se esquece é sempre o inaudito que se impõe. O que não busquei estava lá, colando meu dedo na página, no sopé das suas letras: ‘hinojo(2)’; na seqüência (um esquecido não tem direção), meus dedos cravaram em ‘silo’. Pois bem, com a convicção de que nunca mais se lembrará daquilo que procurava, você acaba cedendo ao jogo do acaso e se ilude achando que está tudo sob controle; assim, resolve formar frases com essas palavras sem coleira, focinheira e, muito menos, sela. E o que é que constata? Que tentar construir sentidos com o que não se sabe tem lá a sua graça, mas é enlouquecedor!  Ora, um ‘silo de hinojos’ é um ‘silo de joelhos’, e nem adianta inverter porque um ‘joelho de silo’ é tanto pior: padecem ambos da mesma demência.

O esquecido é inconseqüente e segue com seus dedos folheando o inofensivo DICCIONARIO DE LA LENGUA que é silencioso como a cauda escorpiana. E bastam apenas mais três tentativas para que o Espanhol se transforme em Húngaro: sorteio, na seqüência: ‘kalmuko’, ‘vulturno’ e ‘pídola’! Mas não, está tudo sob controle, você pensa (mesmo sabendo que até o Rocinante teria mais sorte nas escolhas). Então, resolve formar a frase do horror: ‘kalmuko es el vulturno de la pídola’, e continua ensandecido: ‘la pídola del kalmuko le da vulturno’, e nesse Espanhol-Húngaro, ao verificar o sentido dicionarizado de cada palavra, você aprende que ‘kalmuko’ é o indivíduo de um povoado mongol ‘de orillas del mar Caspio’, que ‘vulturno’ é o mesmo que ‘bochorno’ (mormaço, e também, num sentido figurado, rubor), e que ´pídola’ é um jogo de ‘muchachos en el que uno salta por encima del otro que está agachado’, ou seja, pula-sela.

Mais resistente que a aporia, a loucura mesma se abandona! Claro, que outra frase impenetrável eu poderia formar, ‘que me dan bochornos el jugar la pídola entre los kalmukos’? Com uma raiva inconfessável, desolado e incapaz, fechei o dicionário sobre a mesa e comecei a ler um livro de Germán Coiro, El matador de hormigas:

“Cezirio Arzón en la baldosa roja.”

“Con pasos rápidos, con movimientos rítmicos, exagerando el zigzagueo, avanza esta hormiga negra de antenas largas y frágiles. Mi pie abusa de su suela y quiebra la pobre resistência del bicho. Después de dos pasos, me doy vuelta y veo la mancha húmeda sobre la baldosa roja. Al entrar em mi casa prendo la radio y escucho um tango. Después, cuando la lluvia comienza a sonar en las baldosas y en los árboles, cuando las ventanas empiezan a silbar la pequeña correntada de aire tíbio cargado de humedad, cierro los ojos y, con las manos apoyadas contra el pecho, con una leve presión que no me molesta pero que hace saber que ahí hay algo que es capaz de empujar la carne contra los huecos de los cuerpos, de quebrar los huesos y llegar al lugar del que la vida fluye en correntadas desparejadas, lloro y canto. Lloro y canto con la intención de no ser menos que el cielo, porque si hay algo que me molesta es saber que en la inmensidad de los aires y los tiempos está aquel que me creó para ser superior a mí. Me molesta que moldee con su verbo mis brazos y mis manos sólo para que sequen el llanto de la desesperación o tapen la risa de la ignorancia. Lloro y canto, y me siento parte de la música, y me paseo por la habitación sin sentir el peso de las mentiras ni el cansancio de los músculos, hasta que me hundo.”

Uma raiva (bafo da Ira) só pode ser aplacada de duas maneiras: ou com uma surpresa deleitosa ou na contemplação da desgraça alheia. Fico no segundo caso enquanto acompanho os passos do sr. Cezirio Arzón, delicado matador de formigas.

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Frontera Rusticana

Nenhuma fronteira tem nome e a ninguém pertence. Dá pra ver, ou mesmo sentir (e ouvir e cheirar, também) que é um ambiente que nunca toma forma e sempre põe nos olhos uma embaçada paisagem. No entanto, um lugar que mereceria tantas reflexões, não passa de uma ponte de indiferenças.

O ribeirão encheu demais e os cavalos não puderam atravessar.

As metáforas atrasaram.

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Hoje meus cães comeram língua de boi; depois, vieram me lamber: eles têm nomes infantis e uma graça de fera oculta que apenas o ronco do sono revela. E uma disposição em fuçar e latir todos os dias que me causa inveja: até eu quero latir de vez em quando, procurando disfarçar um pouco o som irritante e enjoativo das vozes, inclusive a minha. Talvez seja uma espécie de tradução inconsciente esse meu latir de imitação: pelo que me consta não há registros de que o homem, em algum momento, tenha latido como os cães, embora todos nós, em situações particulares e específicas, temos o hábito (instintivo e cultural) de uivar. Tradução de inconfessáveis sensações, talvez, mas um excelente substituto de palavras: não imagino nehuma expressão que possa traduzir o uivo, ainda que uivo possa significar muitas expressões. Sempre gostei do óbvio, por isso não vejo problema em afirmar que a tradução é o uivo (ou latido) do original.

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Da forja e da estirada (um trago e uma baforada) que há entre nós, este espaço tratará. No fundo, é uma autofilia que se põe à prova; nessa rivalidade entre gusanos y lombrices, não há mal algum em adornar o húmus, não é?

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