Feeds:
Posts
Comentários

Miguel Rovisco

CINQUENTENÁRIO DE MIGUEL ROVISCO (1959-1987)

 

Beijo tua carranca e tuas mãos, ó Nuno,

porque toda memória é um poema de amor

e esse teu eu regulo

na eternidade do teu relógio de Cobardias

na tua grandeza lusitana

e nas tuas nervuras de Priapo

 

As tramas da tua corda vou distorcendo

no meu entendimento tropical em sisal atlântico

e procuro a ver se encontro

o gajo que herdou teu violino

sob a tua lua de Brahms

 

Eu suponho que já conhecias teu heroísmo

desde a infância com que escarnecias o querer ser Deus

e como Ele

vencer o insosso da lamúria modorrenta

 

A saudade é podólatra

por isso anda e caminha sem fim

a sua linda vaidade de pegadas

como a própria e tanta andança tua, Nuno,

tu que és onomatopeia entre os dentes do Divino

tu que és trilho e mito

 

 

Ivan Fornerón

Do livro O Eu-Cão Que Aprumo; 2009

Teeteto

Hoje é aniversário de Teeteto

Em vida

ocupou-se de coisas irracionais

descobriu o octaedro e o icosaedro

Morreu de disenteria

e dos graves ferimentos na batalha de Corinto

É tudo irracional numa vida grande

OTRO CEMENTERIO

OTRO CEMENTERIO

 

Tras de la iglesia, en ese campo santo

Que jardín es y es camino,

A cuyas losas grises

Árboles velan y circunda hierba,

El sol de mediodía, entre dos nubes,

Desciende para el hombre vivo o muerto.

 

Remanso te parece verde y sosegado,

No lugar que se evita, mas retiro

Donde acudan los vivos a sentarse,

Igual que tú, como descanso en las tareas;

Donde jueguen los niños, con costumbre

Del paraje final en nuestra muerte.

 

La prueba de una tierra

Y la prueba de un hombre

Quieres buscarla, no en las grandes

Acciones, gestos desmesurados,

Sino en esas humildes

En esos recogidos.

 

Toda una historia, un alma se te muestran

Ahí, y las piensas hermosas,

Hechas de recatada confianza en lo sabido,

De respeto sin miedo en lo ignorado,

Viendo tratar así los pobres muertos

Que recuerdo impontente son tan sólo.

 

Luis Cernuda

VIVIR SIN ESTAR VIVIENDO (1944-1949)

QUE NEM JILÓ

 

QUE NEM JILÓ

(Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira)

 

Se a gente lembra só por lembrar
O amor que a gente um dia perdeu
Saudade inté que assim é bom
Pro cabra se convencer
Que é feliz sem saber
Pois não sofreu

Porém se a gente vive a sonhar
Com alguém que se deseja rever
Saudade, entonce, aí é ruim
Eu tiro isso por mim,
Que vivo doido a sofrer

Ai quem me dera voltar
Pros braços do meu xodó
Saudade assim faz roer
E amarga que nem jiló
Mas ninguém pode dizer
Que me viu triste a chorar
Saudade, o meu remédio é cantar

Poesia Maloqueirista

(…)

soma-se a pecados

entusiasmados amores esquisitos

propriamente ditos

sentimentos inclassificáveis

o que ocorre de fato

é um vale de lágrimas

fruto de tendências

da minha trajetória

onde enredos desenvolvem-se

em poemas restritos

 

Berimba de Jesus

in: encarna; sp, 2008

Khaiflambolüp

Também foi

rangendo os dentes

que a necessidade atracou:

foi preciso ver de perto

a herança

de inauditas Missões

 

Toda infância

de casinha brinca

mas infâncias específicas

brincam de ossos

 

IMF

São perdigotos os dias pretéritos

quando interrogados

cospem-nos na cara

 

E seja lá o que foram

seus nervos já não têm a energia do presente

e seus resquícios de saliva

mostram apenas o farelo

que deles fica

 

É grande

MAGNÂNIMA

nossa mais simples mentira

 

IMF

Sergio Peralta

escala humana

 

mi ecosistema es un mundo

cuya forma es un cuerpo de hombre

 

donde llegue todo lo que nadie recibe

habrá tanto de mí

Um verso retorcido

cria suas raízes no muro

trepadeira que espia

do outro lado, por fim,

os primeiros 393km

de uma distância interiorana

que foi parar em Berlim

 

Não há caminho de volta

mas o fim o que é que encontra

senão o começo?

 

IMF

GASTÃO CRUZ

UN BALLO IN MASCHERA

(Monserrat Caballé, ROH Convent Garden, 2 de janeiro de 1981)

 

Pouco tempo depois de estar no palco

quem sai? Pelo amor à personagem

torturada, ou quem sente a ameaça

de qualquer mal ao canto vulnerável?

 

(Madame Caballé is unwell veio

dizer alguém à boca de

cena interrompido o primeiro acto)

 

O amor e o canto são metades

iguais do ser da arte confundíveis

por quem o canto escuta não porém

pelo cantor, digo, também por

 

ele: a voz às vezes com a dor confunde

a sua natureza, então no palco fica

uma súbita pausa um som de morte

a incerteza do que viver seja

Postagens Antigas »