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O Grande Circo Místico

 

O médico de câmara da imperatriz Teresa ­ — Frederico Knieps

resolveu que seu filho também fosse médico,

mas o rapaz fazendo relações com a equilibrista Agnes,

com ela se casou, fundando a dinastia de circo Knieps

de que tanto se tem ocupado a imprensa.

Charlote, filha de Frederico, se casou com o clown,

de que nasceram Marie e Oto.

E Oto se casou com Lily Braun a grande deslocadora

que tinha no ventre um santo tatuado.

A filha de Lily Braun — a tatuada no ventre

quis entrar para um convento,

mas Oto Frederico Knieps não atendeu,

e Margarete continuou a dinastia do circo

de que tanto se tem ocupado a imprensa.

Então, Margarete tatuou o corpo

sofrendo muito por amor de Deus,

pois gravou em sua pele rósea

a Via-Sacra do Senhor dos Passos.

E nenhum tigre a ofendeu jamais;

e o leão Nero que já havia comido dois ventríloquos,

quando ela entrava nua pela jaula adentro,

chorava como um recém-nascido.

Seu esposo — o trapezista Ludwig — nunca mais a pôde amar,

pois as gravuras sagradas afastavam

a pele dela o desejo dele.

Então, o boxeur Rudolf que era ateu

e era homem fera derrubou Margarete e a violou.

Quando acabou, o ateu se converteu, morreu.

Margarete pariu duas meninas que são o prodígio do Grande Circo Knieps.

Mas o maior milagre são as suas virgindades

em que os banqueiros e os homens de monóculo têm esbarrado;

são as suas levitações que a platéia pensa ser truque;

é a sua pureza em que ninguém acredita;

são as suas mágicas que os simples dizem que há o diabo;

mas as crianças crêem nelas, são seus fiéis, seus amigos, seus devotos.

Marie e Helene se apresentam nuas,

dançam no arame e deslocam de tal forma os membros

que parece que os membros não são delas.

A platéia bisa coxas, bisa seios, bisa sovacos.

Marie e Helene se repartem todas,

se distribuem pelos homens cínicos,

mas ninguém vê as almas que elas conservam puras.

E quando atiram os membros para a visão dos homens,

atiram a alma para a visão de Deus.

Com a verdadeira história do grande circo Knieps

muito pouco se tem ocupado a imprensa.

 

Jorge de Lima. Poesia Completa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1997, pp. 372-373.

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=nwPhQw4NpX0#!

Cavalo, cavalo,

sonoro casco

sedosa crina

feno

com rabanetes

só na sua estrebaria

 

 

Cavalo, cavalo,

olho igual

à estrela Aldebarã

aveia e mel

é verde pasto

azul corcel

pela manhã

 

 

I.M.Fornerón

IVAN, 40 ANOS

IVAN, 40 ANOS

 

Avança o buril pela minha gravura

altura

peso

inscrições

sinais

textura

cor

e seja mais o que for

que há em mim

completa 40 anos

Ganhei um rio pra ver naufrágios

só pra provar dessa água

de um modo alternativo

Vivo com riso

e siso

tenho nove orifícios

e conheço a fé

do oxigênio poluído

da minha cidade

Dois grandes amores me arrancaram os braços

o que abandonei e por quem fui abandonado

pensam em mim como que diz “Voa”

Minha sorte está intimamente ligada

à vida dos animais

Parabéns, Ivan!

Do alto da ternura dos que não falam

quatro décadas você contempla

INTERLÚDIO DO SER AUSENTE

 

Esses meses

você conta como segundos

que ao longo de possíveis anos

e meses de calendários

eles se transformarão em dias

ou somente em horas

de uma noite difícil

 

Não conjugues verbos

apelativos ou difíceis

Eu me mato, tu me matas, ele me mata

Não

Vai catar coquinho

Traição e abandono

é um jogo que já conheces

e se é pra julgar alguém

comece pelo espelho

 

Há saudades implodidas no mundo

e o grande milagre de esconder chagas

quando se ri

 

o Amado e Protímenos

você ama e protimeniza

Amar

presta atenção, Ivan,

é a única forma de ter

 

ausência e distância pras cucuias

vai catar coquinho

e dança esse tempo

como dançariam os lagartos

que ele imitou

 

 

 

i.m.fornerón

“Je me suis souvent dit que Sophie avait peutêtre accueilli mon premier refus avec un soulagement secret, et qu’il y avait dans son offre une bonne part de sacrifice.”

 

M. Youcenar

Alexis (Le coup de Grâce)

Elogio dos sonhos

Wisława Szymborska: “Elogio dos sonhos” / trad.: Regina Przybycien

Elogio dos sonhos

Nos sonhos
eu pinto como Vermeer van Delft.

Falo grego fluente
e não só com os vivos.

Dirijo uni carro
que me obedece.

Tenho talento,
escrevo grandes poemas.

Escuto vozes
não menos que os mais veneráveis santos.

Vocês se espantariam
com minha performance ao piano.

Flutuo no ar como se deve
isto é, sozinha.

Ao cair do telhado
desço de manso na relva.

Respiro sem problema
debaixo d’água.

Não reclamo:
consegui descobrir a Atlântida.

Fico feliz de sempre poder acordar
pouco antes de morrer.

Assim que começa a guerra
me viro do melhor lado.

Sou, mas não tenho que ser
filha da minha época.

Faz alguns anos
vi dois sóis.

E anteontem um pinguim.
Com toda a clareza.

SZYMBORSKA, Wisława. Poemas. Trad. de Regina Przybycien

A meu favor

A meu favor

A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer

A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.

O’NEILL, Alexandre. No Reino da Dinamarca. Lisboa: Guimarães, 1958.

Noticias

Hace una semana te fuiste de Chile hacia otro país,
muy al norte de aquí.
Yo no sé cuanto tiempo estarás alejado de mí, ni si regresarás,
pero para que al volver no te asusten los cambios que ves,
te hago un resumen de noticias, donde te cuento un poco de todo,
lo que pasó este último mes.

Hoy el diario dice que el costo de la vida subirá,
que ha ganado otra vez Colo Colo
y que Valparaíso amaneció con mar.
Que una guagua anunció el fin del mundo
y que a todos los Aries les toca perder
y a los Libra ganar.

Dice que los sueños, por ley se prohibieron en Pudahuel,
que hoy ha muerto un poeta de pena,
que la geisha chilena quedó sin hogar,
que un pintor renunció a los colores
y la vida y la muerte han firmado por fin
un tratado de paz.

Leí que el destino le ha declarado la guerra al “dios dirá”,
que el anticristo come en la Casa Blanca
y que el diablo en persona eructa en Irak.
Que las naciones no están unidas
y que sólo esperamos que algún energúmeno
apriete el botón…

Pero en ninguna parte leí que tú aún te acuerdas de mí,
ni que quieres volver,
a vivir ese tiempo de arraigo de nuestra pasión,
a soñar con la casa en el cerro con vista al amor.
Ni a dormir a mi lado en las noches, ni a mirarme con triste reproche,
cuando evoco al dolor.

Hoy la radio dijo, que ha muerto alguien con quien yo dormí,
que amaneció lloviendo en Valdivia
y que en la Argentina falta que comer,
que en Perú ya no cocinan fideos,
que un golpe de estado triunfó en Disneylandia
y tonteras así.

Dicen las noticias, que Bolivia quiere salir al mar,
que la vida es más lenta en verano
y que Zamorano se casa por fin.
Que todo Chile grita “Gato presente”
y que el Presidente no viaja a ni un lado
sin su carta astral…

Pero ninguna radio me dio la certeza de volverte a ver,
para recuperar,
tu sonrisa, tu voz, tu mirada, tu manera de ser,
tus palabras de aliento, tu forma especial de querer,
los mordiscos que a veces me dabas, las marcas de tu amor en mi espalda
…que ahora duelen más.

Hoy vi en la tele, que el jaguar está en peligro de extinción
que la bolsa cayó hasta los suelos
y que la vacuna antisida falló,
que el alcalde bajó en las encuestas
y que la respuesta a los males del mundo
no está en el Corán.

Dice el noticiero, que están matando niños en Aysén,
Que el pasaje de micro es más caro
Y los estudiantes se botan a paro para protestar
Que han desaforado a otro diputado,
Mientras en el Parlamento se aprueba una ley
Que prohíbe volar…

Pero en ningún canal divisé tu silueta siquiera al pasar
Yo no vi ni un close–up
De tus ojos cansados de verme tomar o fumar,
De tus brazos rodeando mi cuerpo en un adiós filial,
Del Otoño como una amenaza, del dolor de encontrar en mi casa
Recuerdos de tu amor…

Por eso ahora escucho noticias,
Para conformarme con mi realidad y compartir con ellas mi soledad
Y para oír cuando la BBC haga el anuncio que has anotado el gol del triunfo, vestido de rojo, en la final de un mundial,
o recibiendo el Oscar al mejor director, o inscribiéndote en el libro de Guinness
o que te has coronado campeón de un torneo interamericano de orgullo e incomprensión.

Por eso ahora yo miro las noticias,
para alejarme de tu alejamiento, para olvidar que ya me has olvidado,
para ver si la CNN te muestra a bordo de un barco y salvando ballenas al sur del Japón,
o protestando por la guerra en Irak, ratificando el Tratado de Paz,
o piloteando el avión que se estrelle de frente contra mi esperanza de amarte tan sólo una vez más…

 

Gonzalo Osses – Vilches

OS DESCABEÇADOS

OS DESCABEÇADOS

 

O  que acontece com a cabeça dos decapitados

além do espetáculo de uma hemoptise singular?

Talvez encontrássemos a vida

se ao invés de sonharmos em ser homens

sonhássemos apenas

em ser hidra

Quem sabe

numa dessas cabeças que nos tiram

outras brotassem

pra renovar o sonho

que nos deu não a luta

mas a vontade de lutar

Uma só cabeça

não dá tempo nem defesa

São ágeis a lâmina e o aço

do fracasso que nos degola

e um amor que fecha a porta

faz o homem sem cabeça

perecer como rato

De um lado o corpo exangue

de um coração sem mundo

do outro

uma cabeça inútil e sem razão

De ambos goteja o sangue adubo

numa terra

onde o homem que sonha em ser homem

será sempre um muro

Com a hidra venceríamos

Com a hidra haveria possibilidade

Sem a hidra

como riem de nós

as ostras, os mosquitos

as pulgas, os vermes

a insanidade!

O infame lambuza-se

no mel das vespas

e urina sobre os homens decapitados

esses seres sem tempo e sem defesa

a tudo que os espreita

manso

maquinando

lado a lado

I.M.Fornerón

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