Um urso branco ronda o télos das minhas chagas
e não há lembrança que não rasure o presente
sem defesa e sem ataque
das suas garras
e sua indiferença de crueldade
poderia ser o corvo, o gato ou mesmo um caruncho
mas é o urso
de pesadelo todo branco
que eu desejei em sonho
E suaves são suas patas sobre meus frangalhos
homem de versos e sem coragem para o contra-ato das armadilhas
Eu desarmo tudo o que pode ferir o urso branco
amor de inimigos
Camões aprendido depois de tantos anos
é uma miséria pedir perdão às memórias
o urso branco vem vindo
quer enterrar uma história
seu fantasma de gelo agranda em mim
a mudez de tudo o que engole a língua
E o urso branco esquarteja
a devoção dos cílios
pálpebras da minha veia
Do urso branco eu só escondo
a mínima água salgada do meu olho de vidro
banhado em terror e desolação
O urso branco não compreenderia
a quarentena que do sol eu fiz
pra não acelerar o seu degelo
Talvez pra ele eu seja
uma memória simples de esterco
Suas garras, saiba, e as aveludadas patas
brincam de arame farpado
I. Forneron