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FANTASMAS SOB O SOL

Um urso branco ronda o télos das minhas chagas

e não há lembrança que não rasure o presente

sem defesa e sem ataque

das suas garras

e sua indiferença de crueldade

poderia ser o corvo, o gato ou mesmo um caruncho

mas é o urso

de pesadelo todo branco

que eu desejei em sonho

E suaves são suas patas sobre meus frangalhos

homem de versos e sem coragem para o contra-ato das armadilhas

Eu desarmo tudo o que pode ferir o urso branco

amor de inimigos

Camões aprendido depois de tantos anos

é uma miséria pedir perdão às memórias

o urso branco vem vindo

quer enterrar uma história

seu fantasma de gelo agranda em mim

a mudez de tudo o que engole a língua

E o urso branco esquarteja

a devoção dos cílios

pálpebras da minha veia

Do urso branco eu só escondo

a mínima água salgada do meu olho de vidro

banhado em terror e desolação

O urso branco não compreenderia

a quarentena que do sol eu fiz

pra não acelerar o seu degelo

Talvez pra ele eu seja

uma memória simples de esterco

Suas garras, saiba, e as aveludadas patas

brincam de arame farpado

I. Forneron

Eu engano a tua ausência

tomando porres de impossibilidades:

estruturo revoluções do mundo

penso na salvação do homem

investigo a imortalidade da alma

me dedico a esses assuntos

tão ivanianos quanto invencíveis

tudo pra que a tua ausência

não seja eu

já que já é ilha

ímã

e muito perto

 

 

Ivan Fornerón

Cordisburgo, 22 de novembro de 2009

Miguel Rovisco

CINQUENTENÁRIO DE MIGUEL ROVISCO (1959-1987)

 

Beijo tua carranca e tuas mãos, ó Nuno,

porque toda memória é um poema de amor

e esse teu eu regulo

na eternidade do teu relógio de Cobardias

na tua grandeza lusitana

e nas tuas nervuras de Priapo

 

As tramas da tua corda vou distorcendo

no meu entendimento tropical em sisal atlântico

e procuro a ver se encontro

o gajo que herdou teu violino

sob a tua lua de Brahms

 

Eu suponho que já conhecias teu heroísmo

desde a infância com que escarnecias o querer ser Deus

e como Ele

vencer o insosso da lamúria modorrenta

 

A saudade é podólatra

por isso anda e caminha sem fim

a sua linda vaidade de pegadas

como a própria e tanta andança tua, Nuno,

tu que és onomatopeia entre os dentes do Divino

tu que és trilho e mito

 

 

Ivan Fornerón

Do livro O Eu-Cão Que Aprumo; 2009

Teeteto

Hoje é aniversário de Teeteto

Em vida

ocupou-se de coisas irracionais

descobriu o octaedro e o icosaedro

Morreu de disenteria

e dos graves ferimentos na batalha de Corinto

É tudo irracional numa vida grande

OTRO CEMENTERIO

OTRO CEMENTERIO

 

Tras de la iglesia, en ese campo santo

Que jardín es y es camino,

A cuyas losas grises

Árboles velan y circunda hierba,

El sol de mediodía, entre dos nubes,

Desciende para el hombre vivo o muerto.

 

Remanso te parece verde y sosegado,

No lugar que se evita, mas retiro

Donde acudan los vivos a sentarse,

Igual que tú, como descanso en las tareas;

Donde jueguen los niños, con costumbre

Del paraje final en nuestra muerte.

 

La prueba de una tierra

Y la prueba de un hombre

Quieres buscarla, no en las grandes

Acciones, gestos desmesurados,

Sino en esas humildes

En esos recogidos.

 

Toda una historia, un alma se te muestran

Ahí, y las piensas hermosas,

Hechas de recatada confianza en lo sabido,

De respeto sin miedo en lo ignorado,

Viendo tratar así los pobres muertos

Que recuerdo impontente son tan sólo.

 

Luis Cernuda

VIVIR SIN ESTAR VIVIENDO (1944-1949)

QUE NEM JILÓ

 

QUE NEM JILÓ

(Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira)

 

Se a gente lembra só por lembrar
O amor que a gente um dia perdeu
Saudade inté que assim é bom
Pro cabra se convencer
Que é feliz sem saber
Pois não sofreu

Porém se a gente vive a sonhar
Com alguém que se deseja rever
Saudade, entonce, aí é ruim
Eu tiro isso por mim,
Que vivo doido a sofrer

Ai quem me dera voltar
Pros braços do meu xodó
Saudade assim faz roer
E amarga que nem jiló
Mas ninguém pode dizer
Que me viu triste a chorar
Saudade, o meu remédio é cantar

Poesia Maloqueirista

(…)

soma-se a pecados

entusiasmados amores esquisitos

propriamente ditos

sentimentos inclassificáveis

o que ocorre de fato

é um vale de lágrimas

fruto de tendências

da minha trajetória

onde enredos desenvolvem-se

em poemas restritos

 

Berimba de Jesus

in: encarna; sp, 2008

Khaiflambolüp

Também foi

rangendo os dentes

que a necessidade atracou:

foi preciso ver de perto

a herança

de inauditas Missões

 

Toda infância

de casinha brinca

mas infâncias específicas

brincam de ossos

 

IMF

São perdigotos os dias pretéritos

quando interrogados

cospem-nos na cara

 

E seja lá o que foram

seus nervos já não têm a energia do presente

e seus resquícios de saliva

mostram apenas o farelo

que deles fica

 

É grande

MAGNÂNIMA

nossa mais simples mentira

 

IMF

Sergio Peralta

escala humana

 

mi ecosistema es un mundo

cuya forma es un cuerpo de hombre

 

donde llegue todo lo que nadie recibe

habrá tanto de mí

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